"PORQUE OS FILÓSOFOS GREGOS MORRERAM NA GRÉCIA"Este conto de Carlos Augusto encontra-se na página 27 do livro "Tentações, Dardos e Fardos" É uma hilária viagem por um cérebro que... bem, é muito melhor a leitura. Aproveite!
Jonas entrou no escritório com um saco de água fria na cabeça, mas foi calmamente murmurando as respostas das palavras cruzadas que se lembrava de ter feito há duas semanas. Ele sentou-se em sua mesa e deixou a caneta tinteiro rolar por sua mão. Que bruta dor de cabeça ele sentia. Virou-se para a parede e ficou olhando o mapa-múndi por uma hora.
“Puxa vida”, pensou. “Na última vez que eu olhei o mapa do mundo, as Filipinas não eram do tamanho de um continente.” Assustado, notou que estava com o nariz grudado no mapa. “Então, tá... Puxa vida, eu devia estar trabalhando aqui... desse jeito posso até ser despedido.” A porta de sua sala abriu-se e entrou um homem com um carrinho cheio de café e pães.
“Bom dia, Jonas. Como está?” “Ahn... bem.” Jonas respondeu, sem ter certeza de conhecer o homem. “O de sempre?”, o homem perguntou, pegando uma torrada e um café frio e colocando na mesa de Jonas. “Desculpe?” “É, você quer o café frio e a torrada morna de sempre?” Jonas sentiu-se ultrajado. “Como você ousa indagar a quentidão de minha torrada?!” O homem balançou a cabeça e deu um sorriso: “Primeiro, posso indagar se sua torrada será morna como sempre, porque também tenho quentes e frias. E, segundo, creio que quentidão não seja uma palavra.” “Ô, Imbecil! Eu disse, não disse?“De fato, disse.” “Então é uma palavra.” O homem sorriu e deixou uma torrada morna e um café frio, “como sempre”. “Espere, eu o conheço?”, perguntou Jonas, enquanto mordia sua torrada. Realmente, torradas mornas eram ótimas. “Você nunca foi tão engraçado, Jonas. Claro que me conhece, eu sou Sócrates.” Jonas coçou a cabeça. “Claro, e eu sou Platão.” “Eu até acreditaria, porém Platão está agora ensinando o valor da vida a um ditador da América Latina. Ele sempre se saiu muito bem com pessoas de visão oblíqua e dissimulada.” “Espere, você é mesmo Aristóteles?!” Jonas perguntou, cuspindo o café frio sobre a mesa. “Não, sou Sócrates.” O homem fez um silêncio. Coçou a cabeça, fez uma força e emendou: “Ou talvez não seja.” “Ahá! Eu sabia!” “Na verdade, você não sabia. Eu, por exemplo, só sei que nada sei.” “E por que é um filósofo?"
"Eu era um filósofo em vida.” “Você morreu?” “Athenas morreu?” “Não sei.” “Eu sei que não...”, disse Sócrates, como que querendo desviar o assunto. “Claro que eu morri. Até Jesus morreu.” “Ahn bem. Você nasceu de novo? Com o lance das chagas e tudo mais?” “Não, na verdade não. Você conhece Jesus?” “Claro que sim.” “Claro que sim? Bom, você deveria conhecer-se a si mesmo, antes.” “Claro, claro. Claro que sim.” “Muito claro que afirmativamente sim. Ou não?” “Droga! Olha aqui, amigão, vamos deixar essas suas baboseiras filosóficas de lado. Afinal, o que você quer comigo?” “Como posso dizer o que quero com você se você não pode me dizer quem é?” “Mas eu sou o Jonas.” “Então me diga, João, quem é Jonas?” “Sou eu.” “Como tem certeza?” “Ora bolas, minha mãe me deu esse nome.” “Quem era sua mãe?” “Gertrudes.” “E quem era Gertrudes, João?” “Na verdade, sou Jonas.” “Quem disse?” “Minha mãe.” “E quem era sua mãe?” “Acho que isso não vai muito longe.” “Você realmente sabe onde é longe?” “Claro que sei. É isso. Eu vou embora daqui. Eu acho que nem trabalho aqui.” “Claro que não. Isso foi uma sala idealizada pela sua mente e onde você deseja trabalhar.” “Eu criei isso tudo?” “Sim.” “Esta mesa?” “Sim.” “Estas cadeiras?” “Sim.” “Esta caneta?” “Não, essa caneta foi feita na China e está aqui porque você não conseguiu idealizar uma melhor.” “Interessante.” “-Íssimo. Mas por que estou aqui? Melhor ainda, por que você está aqui?” “Não sei. Talvez você possa responder. Espere... Não posso. Não sei.” “Muito bem, suas perguntas, dúvidas e inseguranças mostram que você começou a entender a filosofia.” “Mas eu não quero entender Fisiologia nenhuma! Eu quero é saber o que é este lugar, este momento que vivencio!” “Ah, por que não disse logo?” “Meu Deus, isso é pior que Chaves.” “Me desculpe?” “Nada, não devem ter lançado isso na Grécia. Vocês eram muito conservadores na Grécia?” “Se você considera Orgias, Homossexualismo, Pensamentos Revolucionários e Novos Modos Artísticos conservadorismo...” “Isso é um sim?” “O que é um sim?” “Por que você sempre me responde com perguntas?” “Que perguntas?” “Viu?” “Vi o quê? Você realmente vê algo?” “Olha aqui, ô Sócrates, me diga o que é esse momento!” “Ah, é mesmo. Isto é um porre.” “Eu estou bêbado?” “Afinal, quem é você... Ah, esquece. Isso mesmo, você está bêbado.” “Meu Deus, o que eu fiz para isso acontecer?” “Até eu, que só sei que nada sei, sei por quê! Porque você bebeu pra cacete.” “Ah bom. Mas como isso explica sua presença?” “Depois que as pessoas morrem, cada uma vai exercer uma função. Sabe como é, pense no Céu e no Inferno como grandes prefeituras municipais. Mas o plano de aposentadoria é muito pior, pois você é imortal mesmo, já morreu.” “E seu posto é me atordoar?” “Isso mesmo. Eu sou um Fantasma do Porre da Noite Passada.” “Como no filme de Natal, que tinha o Fantasma do Natal Passado?” “Não, mais como no Gibi do Fantasma, o espírito que anda. Mas acho que você entendeu.” “Mas por que Deus contratou você ?” “Ah, Deus, não. Eu nem fui batizado. Trabalho é pro Diabo.” “Meu Deus, você é um demônio.” “Na verdade não. Como eu disse, ambos contratam pessoas. Deus não odeia o Diabo. Na verdade, eles jogam xadrez toda sexta-feira de tarde no Vaticano com o Papa. Entretanto o Inferno cuida dos cargos chatos. Como os leões da Grécia, os leões do Imposto de Renda, os corretores de Seguro, os donos do jogo do bicho, os chefões da máfia...” “Entendo. E o Céu?” “Cuida de cargos especiais. Profissionais liberais, microempresários, sabe? Mas com um chefe comum, Ele, Deus.” “E você, qual sua função?” “Como Fantasma do Porre da Noite Passada, eu tenho que lançar mão da ressaca. Sabe, depois da morte todos trabalham de acordo com seus dons. Como eu já disse, Platão virou Assessor da ONU.” “Vocês possuem uma ONU?” “Sim. E os nossos mortos trabalham para manter a ordem dos seus vivos.” “Interessante. Mas por que eu tenho que ter ressaca?” “Ah, bom. Depois da Grande Quebra da Bolsa de Deus, as ações do Céu caíram. Sabe, Pecados Capitais e essas coisas. Pra dizer a verdade, depois da Revolução Industrial houve uma troca de valores. Tudo que era Pecado ficou bom, como a gula e a ganância. Enquanto coisas boas de antes, como morrer pela Igreja, pareceram más idéias. E nesse ponto o Diabo venceu Deus, ele nunca escreveu seus acordos. Assim, se atualizava com o tempo. Bom, mas essa não é a pergunta. O resumo é: o Céu estava em queda, enquanto as ações do Diabo subiam. Assim, o Diabo fez um acordo com Deus. E Deus terceirizou alguns de seus setores. Os últimos milagres, como Santos em Vidros de Carros e Imagens Chorando Sangue, são obras do Diabo. Sabe como é, eles fizeram um truste, para dominar o mercado. E uma dessas terceirizações sou eu. Eu trabalho pro Diabo, mas sirvo aos interesses de Deus, enquanto dou lucro a ambos. Sabe, eu utilizo a ressaca pra que você não beba mais pois beber é pecado. Porém agora, Jesus está fazendo num CD a expansão da Bíblia, a “The Bible Version 2.0, suporte para placa 3D de 64 MB”, na qual os pecados serão mudados. Ou seja, Gula, Avareza e outras coisas ilegais serão permitidas, enquanto coisas como plantar bananeira aos domingos será pecado. Sabe, até uma nova revolução industrial ocorrer. Daí, talvez, eu mude de emprego, pra seguir o rumo do negócio. Um silêncio seguiu. Jonas pensou muito e então abriu sua boca. Desistiu e a fechou. Após repetir o processo três vezes, finalmente perguntou: “Depois dessa nova revolução, eu vou poder tomar porre?” “Não sei, temos que dar atenção aos rumos do mercado. Mas, se você puder, eu vou mudar de área. Talvez eu vá pra área das humanas, como Aristóteles. Trabalhar com crianças carentes ou deficiente. Sabe, aqueles que realmente merecem atenção.” “Eu tenho uma dúvida. Você disse que Deus e o Diabo querem monopolizar o mercado. Mas quem mais existe?” “Ué, ora! As outras religiões! Buda tem uma multinacional de restaurantes e é dono da empresa que industrializa remédios para emagrecer. Alá fabrica e vende veículos e aqueles dados de pelúcia que se põem em carros.” “Ah, aqueles dados de pelúcia do retrovisor. Todo mundo tem um deles, não é mesmo? Puxa, deve dar um dinheirão.” “E dá. Por isso a Grande Quebra da Bolsa de Deus fez surgir esse acordo: as novas religiões estavam ganhando muito espaço.” “Espere um pouco. Acabei de perceber algo. Deus e o Diabo e todos esses caras são apenas empresários?” “Isso mesmo.” “Quer dizer que eu me esforço a vida toda por nada, pra depois trabalhar para uma multinacional gigante?” “Isso mesmo, você entendeu.” “E eu devo sorrir sempre?”, Jonas quis saber, lembrando-se de um cartaz que vira em uma loja de fast food. “Não, apenas se for trabalhar pra Buda. Suas lanchonetes exigem muita simpatia com o consumidor.” “Então, o significado da vida é preencher uma meta capitalista para outros?” “Isso mesmo. Espero que você não se preocupe. Bom, acho que você já está confuso o bastante. A ressaca deverá ser horrível. Adeus. Até outro porre.” “Espere! Esse não é um final adequado! Estou me revoltando com a vida, com os princípios! Um filósofo deveria adorar isso!” “De fato. Mas sabe como é, não me pagam hora extra. Adeus. Até outro porre.
A hipocrisia sobre o álcool no Brasil, é vergonhosa. "Eu bebo sim,estou vivendo. Tem gente que não bebe e está morrendo...Eu bebo sim" A cerveja desce suavemente. Quem bebe tem mais dinheiro e mais mulheres, mais carros... Tudo não passa de uma grande mentira. A melhor curtição é a cara limpa. Careta, quem faz é o bêbado!
A brilhante escritora Lia Luft recebe o autógrafo de Carlos Augusto Pessoa de Brum em seu livro "Tentações, Dardos e Fardos" na Feira do livro do Colégio Farroupilha.